(O post também poderia intitular-se “Destempero
político”. O tom jocoso e sibilino do cronista é conhecido e tenho-o divulgado
aqui com frequência. Mas dá uma ideia que julgo fidedigna da tragédia política em que a Espanha
está mergulhada.
“O paroxismo unitário emerge, finalmente, quando o corpo
eleitoral pensa que votar é semelhante a jogar ao póquer e que se pode fazer
bluff com total independência das cartas que temos na mão. Porque, pondo uma
cara de mármore fria, sem evidenciar nenhum sinal de medo, sempre é possível
ganhar: no póquer porque os adversários passam; em política porque se entende
que a unidade é sempre possível e tudo resolve. Por isso estamos tão
tranquilos. Porque tendo gerado um país ingovernável e um Governo com duas cabeças,
com uma maioria parlamentar cheia de traidores e cantarolas, resgatamos o mito
da unidade de ação, juntamos Pablo Iglésias com Cayetana Álvarez de Toledo,
Sánchez com Abascal, Torra com Arrimadas, Yolanda Diáz com Cadado, Puigdemont com
Marlaska e Rufián com Margarita Robles, pomos sal e pimenta, a pérola no fogo,
a batedeira a funcionar e … governem que o coronavírus está aí!
Mas o que se passa connosco? Que conceito temos de governo, democracia,
pluralismo, oposição, sistema, debate e modelo socioeconómico? A verdade é que
disso não sabemos nada, nem nos importa. Primeiro fazemos o que nos dá na real
gana e montamos uma infame bacia de hidromassagem. E quando chega o vírus
atiramos tudo pela borda fora e pomo-nos a rezar ao deus da unidade destruída.
Pois continuemos assim, vizinhos, que com o tempo se aprende.” (Xosé Luís Barreiro-Rivas, Voz de Galicia) (link aqui).
Há tempo para tudo, para a experimentação política até. Mas há
certamente limites para a escolha dos tempos e dos momentos. E temos um
paradoxo: a Espanha golpeada de modo brutal por um adversário impiedoso e as
forças políticas utilizando o adversário como saco de boxe para desentorpecer
as forças em pleno confinamento. Pode ser que a nossa conjuntura política se
deteriore nos próximos tempos e que até, oxalá que não, António Costa governe
para a história e não para um novo ciclo de afirmação do PS como o merecia por
mais adversários obtusos se atravessem no caminho. Mas de uma vez por todas termos
um PSD dirigido por Rui Rio a travar a virulência política maldosa e sem
quartel é cá uma bênção de circunstância! E que o Bloco continue a morder nos
calcanhares à esquerda do PS é bom que assim seja e por muito tempo. Como tenho
dito não temos cá dentro um PODEMOS e os nacionalismos não nos apoquentam. Mas
quando vemos a Espanha a golpear-se e a ser golpeada apetece dizer, desta vez
tivemos sorte.
Como pano de fundo a curva dos mortos diários por coronavírus em Espanha
e até o nosso Luís Sepúlveda se foi para mal dos seus livros que se quedarão
nas nossas estantes desamparados.
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