domingo, 3 de abril de 2016

DAS OPOSIÇÕES E DA POLÍTICA DOS POWER POINT

(El Roto)




Pouco tempo para o blogue num fim de semana marcado por logística familiar e pela utilização do pouco tempo disponível para trabalhar num working paper para a Faculdade de Economia do Porto, com os colegas Pilar, Luís e Hugo que pretende ir algo mais além do que está em vias de publicação na Edward Elgar (já publicado pela OIT/ILO) sobre o tema do efeito da crise sobre os “middle-income groups” em Portugal.

O congresso do PSD e as tentativas da “saia e casaco” Cristas para se afirmar no firmamento da oposição portuguesa implicam seguramente alguma reflexão sobre o tipo de oposição que se vai fazendo à direita do PS e do acordo parlamentar de suporte ao governo.

Há certamente diferenças entre o estilo de oposição de Passos e Cristas e certamente em reflexão futura ocupar-me-ei dessa matéria. Mas descontando essas diferenças que ficam para outras núpcias de reflexão, a direita parece reduzida a dois grupos de argumentos, que interagem entre si mas que vale a pena diferenciar. Eles podem resumir-se em duas interrogações que ouvimos sem fim ser declaradas mais ou menos convictamente pelos personagens a quem cabe o ónus de dizer alguma coisa para assinalar a existência: interrogação nº 1 – como é que as soluções propostas vão passar no Eurogrupo?, com várias declinações uma das quais é a da questão do plano B; interrogação nº2 – onde é que está o dinheiro para financiar tais propostas?

É verdade que a cartilha do PSD usa mais frequentemente este estilo de argumentação. O CDS de Cristas usa-as menos mas não as renega, embora evolua mais em círculos largos de que a proposta de revisão constitucional é um dos elementos mais salientes. Temos de convir que se trata de um conteúdo de oposição que designaria de oposição exógena, sobretudo na colagem às posições mais que discutíveis do Eurogrupo. Mas ambas refletem qualquer perspetiva nova para além de uma situação de ajustamento que PSD e CDS bem representaram ao assumirem o estatuto de seguidores acríticos. A contradição parece óbvia. Uma de duas. Ou a direita acha que o tão badalado regresso aos mercados justifica o preço elevado que foi pago e que tudo agora pode começar de novo. Se assim é deveriam propor aos portugueses a maneira para começar de novo e não escudarem-se nas posições intransigentes do Eurogrupo. Ou então terão de admitir que o problema central da economia portuguesa é ainda de ajustamento penoso e isso equivalerá a admitir a derrota de termos pago um preço demasiado elevado para voltar tudo à estaca zero, ao clima de ajustamento permanente.

A esta colagem da oposição às teses do Eurogrupo, ele próprio confrontado com a evidência sólida de que a sua abordagem falhou e que é responsável entre outros pela estagnação da economia mundial, parece responder o governo com alguma capacidade de inventiva negocial, fazendo jus ao cardápio de competências reconhecidas a António Costa, mas parco também em sentido portador de futuro. O regresso ao modelo da política subsumida em Power Points que a apresentação do Programa Nacional de Reformas parece querer representar. Não creio que o conteúdo apresentado deva suscitar arremetida tão virulenta como a que Manuel Carvalho hoje realiza na sua crónica no Público. Mas teria ficado bem ao Governo evidenciar na apresentação aquilo que a sua versão do PNR representa de marca diferenciadora face ao PNR apresentado pelo anterior Governo para discussão do Acordo de Parceria que conduziu ao Portugal 2020. Na minha leitura, penso que há apenas duas áreas sensíveis em que se nota a marca do atual governo: o relevo dado à formação de adultos e as propostas de capitalização das empresas portuguesas para combater a sua extrema dependência bancária e baixíssimo grau de autonomia financeira.

Parece pouco e uma explicação devia ser dada para esse pouco. E já agora duas áreas que me sabem também a pouco pelo facto de não se vislumbrar nada de significativo no horizonte nessas matérias. Primeiro, um governo que se bate tanto por uma companhia de bandeira como a TAP não apresenta rigorosamente nada sobre a valorização da língua. Segundo, continua a ser parco o discurso político do governo quanto à preparação de um horizonte para o investimento privado, apesar da novidade que as propostas para a capitalização das empresas representam.

A curteza do discurso político da oposição e a debilidade do seu conteúdo parecem perigosamente interagir com o regresso do Power Point à política.

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