(Osborne procura regressar aos tempos Vitorianos legislando sobre excedentes orçamentais)
(Um toque de
bom senso contra a demagogia conservadora)
Martin Wolf é uma personalidade demasiado conhecida para poder ser mal
interpretado. Jornalista e comentador económico-chefe do Financial Times, lido
em todo o mundo, é autor de pelo menos duas importantes obras: Why Globalization Works? (Yale
University Press, 2004) e The Shifts and
the Shocks . What we have learned – and Have still to Learn – from the
Financial Crisis (Penguin 2014) e a ele se
devem interpretações “out of the box”
da crise financeira, embora seja um fervoroso apoiante da globalização.
Por isso, e seguindo a terminologia de Bradford DeLong, não pode ser
apontado a dedo como um adepto de uma forte intervenção pública, não colhendo
nesse sentido a ideia de que as suas posições são comandadas pelo gangue do BIG
GOVERNMENT, escrevendo para agradar a seus amos e senhores.
Ora, esta contextualização inicial é crucial para entendermos a crítica
contundente que Wolf deixou a 11 de junho à política económica dos
conservadores após a estrondosa e inesperada (pela sua dimensão) vitória
eleitoral do passado maio. Os conservadores já tinham conseguido enredar o
Labour numa patética trapalhada explicativa pré-eleitoral quando os associaram
a uma tripa –forra despesista, tarefa aliás facilitada quando o ministro das
Finanças trabalhista de saída do poder resolveu ironizar com o seu colega
conservador (George Osborne) que lhe sucedia dizendo-lhe que iria encontrar os
cofres vazios (uma espécie de alter ego ao contrário de Maria Luís, a guardiã
dos cofres cheios. Osborne tomou-lhe o gosto e decidiu passar a letra de lei a
sua firme determinação em assumir excedentes fiscais no Reino Unido,
regressando a uma devoção Vitoriana, e enredando de novo o Labour numa
armadilha perigosa: o Labour só readquiria a confiança dos ingleses quando assumisse
as suas culpas e prometesse seguir o cardápio de intenções vitorianas no plano
fiscal de Osborne. Com esta promessa e a outra de não aumentar os impostos,
isso equivaleria a amarrar o Labour a cortes inevitáveis na despesa,
enredando-o numa omissão de alternativa de política macroeconómica.
Tenho defendido que a maioria atual em Portugal tem uma especial afeição
pelo modelo de política económica dos conservadores tal como o têm praticado
antes das eleições e estão decididos a manter tal orientação na próxima
legislatura. A vitória sorriu aos conservadores e desde logo as cabeças de
Passos e de Portas iluminaram-se, o enredo do despesismo dos adversários tinha
dado votos. Porque não esperar uma reedição da cantilena?
O artigo de Wolf é uma desmontagem séria da ideia conservadora de que o
endividamento público é uma espécie de diabo de que as almas sãs devem
afastar-se. Wolf mostra que o fundamental é assegurar uma recuperação saudável
e não legislar sobre excedentes orçamentais: “(…) A
obsessão com o défice público não é saudável. O endividamento público não
representa sempre o diabo. E o endividamento privado não representa sempre um
bem. É bastante apropriado pedir emprestado para investir. E não menos, o tempo
para reduzir o endividamento público chega quando a economia entrar em expansão
e as taxas de juro se afastarem dos valores nulos.”
Será Wolf um perigoso seguidor do “BIG GOVERNMENT”? Terá ele um pacto do
diabo com Keynes? Não me parece. Simplesmente bom senso e capacidade de
compreender o momento atual das principais economias de mercado. Mas como o título
do seu último livre interpela, talvez não tenhamos aprendido tudo o que é
necessário sobre a crise financeira e as suas sequelas
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