(Uma incómoda, ou talvez não, comparação de gráficos)
Como tenho vindo sistematicamente a sublinhar, o tema e o debate em torno
da desigualdade estão na ordem do dia americana, seja no debate político, seja
no debate económico. Como também já aqui anotei repetidas vezes são necessárias
extremas cautelas para transpor esse debate para a realidade portuguesa e é
cada vez mais necessário o rigor que frequentemente falha no debate político
nacional.
Num post que pretendo curto mas incisivo porque agosto convida a repouso,
chamo a atenção para um gráfico que tem feito parte da campanha de Hillary
Clinton que espero venha a ser a próxima Presidente. O gráfico que abre este
post compara o crescimento acumulado da remuneração hora do trabalho nos EUA
com a variação da produtividade. A imagem é esclarecedora. A partir de 1970, o
crescimento da produtividade dispara em relação ao da remuneração do trabalho e
isso explicará parcialmente o agudizar da desigualdade americana.
Fui à procura expedita de informação similar para a economia portuguesa e a
série mais consistente e mais acessível que encontrei foi dada pelo Banco de
Portugal que nos fornece de 1995 a 2014 as taxas de variação das remunerações do
trabalho (dividindo remunerações pelo volume do emprego por conta de outrem) e
da produtividade (dividindo o PIB pelo emprego). As séries em presença nos EUA
e do Banco de Portugal não são rigorosamente as mesmas, mas fornecem uma
informação que não deixa de ser preciosa.
O gráfico equivalente para a economia portuguesa, transformando as taxas de
variação anuais na evolução de um número índice para as duas variáveis (com
base 100 em 1995), é estarrecedor. É visível o bloqueamento da produtividade em
Portugal. Apenas em 5 anos do período considerado, a taxa de crescimento da
produtividade superou o das remunerações por trabalhador.
Qualquer discussão séria sobre o nosso futuro não deveria ignorar esta evidência.
Incómoda, mas incontornável.
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