quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A ESCÓCIA DE TODAS AS INCERTEZAS



Sob uma perspetiva meramente interessada nas ideias em torno da política e da participação democrática nos rumos de um país, o referendo de amanhã na Escócia sobre o sim ou o não à independência é apaixonante. O peso de uma decisão em torno de uma ligação que tem mais de 300 anos (o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte data de 1706-07 sem esta última e de 1800 com esta última) é enorme e estou sobretudo curioso qual vai ser a percentagem de participação no ato eleitoral. Estou convencido que as incertezas que pesam sobre o processo que se seguiria a um eventual sim independentista são de tal maneira complexas que a natureza securitária de uma grande parte dos escoceses que prezam a sua identidade e história irá fazer pender a sua decisão para o não. Posso enganar-me, tal como as empresas de sondagens que estão aterrorizadas pelo vazio dos termos de comparação, receando o erro colossal das sondagens.
A complexidade das incertezas do pós eventual YES é enorme. A questão das alternativas sobre a moeda que os escoceses teriam de adotar, da propriedade do petróleo (total ou parcial em função do peso que os escoceses assumem no total da União em que estão inseridos e da dívida, só para mencionar os mais discutidos, atestam essa complexidade. Incertezas complexas não só devido à complexidade de cada tema, mas devido sobretudo à interação entre os mesmos, tornando ainda mais complexa a questão. Incerteza ainda porque ninguém é capaz de antecipar qual seria o comportamento negocial do governo britânico acaso o YES a isso obrigasse.
Mas a manifestação mais lamentável da tensão em torno do resultado do referendo é o chorrilho de promessas assumidas pelos partidos  britânicos que suportam o NÃO de assegurar à Escócia um reforço substancial da sua autonomia caso o NÃO vença. Talvez com esta promessa de última hora possa o tiro sair pela culatra aos seus autores. É de facto espantoso como só o aumento das intenções do SIM permitiu descobrir que afinal havia margem para um maior grau de “devolution” à Escócia. E, se isso acontecesse, perguntariam as restantes peças do Reino Unido por que razão teria a Escócia maior autonomia e não generalizá-la a todo o Reino Unido.
Pela ironia dos factos, mesmo que o NÃO vença, não será indiferente a diferença da vitória. Uma vitória tangencial prolongará a tensão pela independência e o Reino Unido já não será o mesmo.

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