quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A MERKEL PROFUNDA



A sociedade portuguesa tem uma relação histórica conturbada com o tema das qualificações e o medo pelo “excesso” das mesmas tem emergido historicamente em diferentes momentos como um dos mais aberrantes fantasmas de uma sociedade que deveria preocupar-se, isso sim, era com o défice estrutural de qualificações.
Na tese de doutoramento do Professor António Nóvoa há uma análise preciosa deste fantasma português em que ele cita inclusivamente uma notícia de primeira página de uma das primeiras edições do Século em que o lançamento de um número ridiculamente baixo de novos licenciados em direito era apontado como um perigo nacional.
Para além disso é nítido que a sociedade portuguesa se encontra hoje num “plateau” em matéria de qualificações, comprometendo por via dos fluxos de novos licenciados uma profunda inércia estrutural que coloca Portugal num défice permanente para algumas ambições de ser alguém na economia global. A inércia é tão grande que, ao mínimo sinal de menor esforço de investimento nas qualificações, se compromete um futuro de convergência face aos padrões comparativos de países com quem podemos disputar alguns posicionamentos na economia global.
De fantasmas internos estamos conversados. Para mal dos nossos pecados, vem agora a Merkel profunda dar-se ao desplante de dizer que Portugal teria licenciados a mais e que o que o país precisa são de formações vocacionais, de caráter técnico intermédio e já agora seguir a experiência alemã nessa matéria.
Chamo-lhe Merkel profunda porque este pequeno pormenor, que até pode ser um dislate de circunstância, até eventualmente mal contextualizado, diz bem da conceção que Merkel tem da organização do espaço europeu: de um lado os que podem aspirar à liderança do conhecimento e do outro os que necessitariam apenas de algumas competências técnicas para poder aplicar e trabalhar com os artefactos e equipamentos produzidos pelos detentores do conhecimento e da inovação. As transferências de mão de obra mais qualificada (licenciada) em direção aos primeiros resolveria entretanto pequenos desvios que teimassem em manter-se. E também como gato escondido de rabo de fora uma situação desta natureza eternizaria o desvio salarial do sul, potenciando por essa via ao investimento alemão uma atraente relação produtividade-salário, extremamente lucrativa.
Merkel não é uma catavento qualquer, tem formação científica de base que mais justifica que o dislate encobre provavelmente uma visão sobre as economias do sul que encaixa lindamente com todo o processo que enquadrou as crises de dívida e o racional das políticas de austeridade. Tudo começa a encaixar como se as afirmações de Merkel fossem a peça do puzzle que faltava e que estava algures escondida. É para esta Merkel profunda que deveremos direcionar as nossas preocupações e não para a obsessão com o excesso de qualificações. O que a líder da coligação do poder na Alemanha nos quer dizer é que não vale a pena termos grandes ambições de posicionamento na economia global, restando-nos dotar o investimento estrangeiro de sólidas competências técnicas intermédias garantidas por ensino técnico. Será que o poder de resignação dos Portugueses estará assim tão enraizado?

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