quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

RÉPLICAS (3)



E ao quarto dia o xadrez Grécia (SYRIZA) versus União Europeia torna-se mais complexo, sobretudo porque na minha interpretação não há neste momento apenas um tabuleiro, mas dois. Como é que isto é possível? A questão é que neste momento não existe apenas a defesa ou implosão do euro e obviamente da própria União Europeia. Ou seja, não temos apenas o tabuleiro económico. Há também o tabuleiro político e o centro de todos os fogos o problema Rússia – Ucrânia. O posicionamento da EU face à plutocracia de Moscovo e às derivas bélicas e invasivas de grupos provavelmente pertencentes à sua vasta área de proteção de interesses tem vindo a evidenciar uma cada vez maior dificuldade de geração de consensos credíveis e eficazes. O Presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk, não é propriamente um homem distanciado face aos soviéticos e capaz de grandes negociações diplomáticas e compreende-se porquê, é só compreender a história. Alguns países bálticos são do tipo “mata e esfola”, até porque não são tão potencialmente interessados numa abertura económica da Rússia como outros membros da União Europeia. A combinação de tudo isto com a questão do gás natural baralha ainda mais o panorama. Mas agora, com o SYRIZA a suscitar velhos respeitos e proximidades com a Rússia, a formação de consensos será ainda mais problemática, até porque a precipitação do Conselho Europeu gerou um comunicado do qual aparentemente o novo Governo grego não foi informado.
Os dois tabuleiros não são totalmente estanques, pelo que a complexidade dos posicionamentos ultrapassará a nossa capacidade de os perceber com uma visão exterior. Talvez seja a altura certa para se revisitar a história sobre o estado da arte em Uniões Políticas.
Na frente económica, as réplicas pós SYRIZA sucedem-se e o Financial Times continua a ser um espaço de eleição para compreender os confrontos.
Do lado dos que se opõem claramente à anulação parcial de dívida grega, regista-se a novidade da rejeição ser agora acompanhada da denúncia do que essa linha de argumentação considera ser a “roleta russa” (sem qualquer alusão maldosa ao tabuleiro político) da política económica defendida pelo governo SYRIZA. Gideon Rachman chama-lhe engenhosamente a “voodoo economics”. Essa linha de argumentação terá sempre a ajuda preciosa da pressão dos mercados e estes começam a querer influenciar o debate, numa anunciada maneira de influenciar as opções políticas.
Do lado dos que vêm a anulação parcial de dívida como a única modalidade sustentada de preservar a não implosão do euro, há que registar hoje a chegada a esta frente de um Vice-Presidente da Morgan Stanley e antigo chefe do FMI Europa, Reza Moghadan, que teve envolvimento nas negociações com a Troika entre 2010 e 2014 (o primeiro ato de contrição conhecido?).
A forma como conclui o artigo no FT é esclarecedora:
“A zona euro ultrapassou os seus tabus acerca de resgates, reestruturação da dívida privada e união bancária. Tal como o SYRIZA precisa de ultrapassar a relutância grega em proceder a reformas estruturais mais profundas, a Europa necessita de ultrapassar os seus tabus em matéria de perdão de dívida”.
Mas que ato de contrição!
Tal como o cartoon que abre este post e a crónica de Philip Stephens o sugere, será que Merkel vai acordar ou teimará em sublimar a situação procurando matar o pesadelo?

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