segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O ERRO DE STIGLITZ



(O economista americano assina no Project Syndicate um artigo sobre o conceito de estagnação secular que assenta num erro de perspetiva e numa descuidada interpretação do que tem sido escrito sobre o conceito. Com origem numa preocupação válida, a de demonstrar que o estímulo fiscal na economia americana como resposta aos acontecimentos de 2007-2008 deveria ter sido mais amplo, Stiglitz acaba por revelar uma interpretação distorcida do conceito de estagnação secular. Acontece aos melhores.)

Joseph Stiglitz tem-se destacado na análise crítica da gestão da crise de 2007-2008 em termos de política económica e monetária. A sua visão crítica da gestão macroeconómica de Obama e agora dos desvarios da administração Trump é amplamente conhecida. Entre os economistas Nobel vivos, a par de Krugman, é dos mais combativos e tem pena afiada, assumindo-se como um dos principais rostos interventivos da Progressive Economy.

No seu artigo mais recente no Project Syndicate (link aqui), o economista americano mantém o seu registo crítico sobre a gestão macroeconómica do pós 2007-2008, mas mete ao barulho o conceito de estagnação secular, desvalorizando-o e em meu entender errando o tiro. Stiglitz talvez não morra de amores pelos pais da moderna interpretação do velho conceito de estagnação secular de Alvin Hansen nos anos 30 (com Larry Summers à cabeça), vá lá saber-se e nem me interessa. O economista americano interpreta a atratividade que a reinterpretação do conceito mereceu nos últimos tempos como um pretexto dos responsáveis pela gestão da recuperação macroeconómica da crise de 2008 para justificar a sua incompetência em conseguir uma recuperação mais rápida e robusta. Algo que em discurso direto poderia ser assim descrito: “sim, a recuperação foi anémica mas não nos culpem, mas dirijam as vossas críticas às ameaças de estagnação secular.

Stiglitz tem razão em defender que o estímulo fiscal da governação Obama poderia ter sido mais amplo e se o tivesse sido muito provavelmente a recuperação não teria sido tão direcionada para a melhoria dos rendimentos do 1º mais rico da população americana. Mas parece-me um erro de perspetiva a sua afirmação: “Tivesse o estímulo fiscal sido mais amplo e a recuperação teria sido mais forte e não haveria qualquer conversa sobre estagnação secular”.

O bias da argumentação de Stiglitz é por demais evidente. Na sua ânsia de demonstrar o seu argumento de que o estímulo fiscal de Obama foi tímido, cai numa interpretação errada do conceito de estagnação secular. Tal como foi apresentado e abundantemente referido neste blogue, o conceito de estagnação secular passa pelas dificuldades observadas na recuperação pós 2007-2008 mas não apenas por aí. O conceito aponta para novas condições estruturais de crescimento económico na economia americana e nas economias maduras em geral que estão para além das condições de recuperação das crises (da última e das que necessariamente irão registar-se nos próximos tempos). É um fenómeno estrutural que mexe com o baixo valor da taxa de juro natural, com as interrogações do progresso técnico sobre o ritmo de crescimento da produtividade, com o declínio demográfico ocidental e com a influência do baixo preço relativo do capital sobre o investimento em capital fixo em condições de excesso de poupança disponível e não com o modo como a gestão macroeconómica da recuperação é realizada. Aliás, esta última é neste caso uma variável dependente. Terá de revestir-se de novas frentes para enfrentar precisamente os desafios da ameaça de estagnação secular, designadamente a maior necessidade da política fiscal e as grandes limitações da política monetária.

Stiglitz não compreendeu que o conceito de estagnação secular é do tempo longo na economia e que a sua fiabilidade reforça a necessidade de estímulos fiscais mais fortes como ele próprio advoga. Em economia do tempo longo, há conceitos que podem revelar-se de difícil medida e não é por isso que lhes reservamos a classificação de mitos, como Stiglitz o faz para a estagnação secular.

Nem os melhores resistem, por vezes, à tentação dos argumentos enviesados.

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