sábado, 15 de fevereiro de 2014

DESVALORIZAÇÃO INTERNA E COMPETITIVIDADE (II)

(Custos unitários do trabalho relativos : índices cambiais efetivos deflacionados pelos custos unitários de trabalho relativos; um aumento significa aumento de custos dos exportadores)


O artigo de Richard Wood (EconoMonitor) aqui comentado deixou-me dúvidas e indaguei junto do Banco de Portugal acerca do estado da arte nesta matéria, designadamente sobre o papel de indicadores de competitividade-preço na explicação do comportamento das exportações e da procura externa líquida (de importações).
Via comentário sempre oportuno do meu amigo Carlos Silva Costa, cheguei a um artigo relevante de dois economistas portugueses, publicado pelo Banco Central Europeu, Paulo Soares Esteves e António Rua (“Is there a role for domestic demand pressure on export performance?”, Setembro de 2013.
O artigo, para além de documentar a já por mim referida influência da taxa de câmbio real (para os países da zona euro o comportamento relativo de preços dos bens transacionáveis e não transacionáveis) no comportamento das exportações, conclui com alguma robustez econométrica que o comportamento da procura interna, sobretudo ponderada pelo seu conteúdo de importações, influencia com algum desfasamento temporal o comportamento das exportações e fá-lo de modo assimétrico. Ou seja, quando a procura interna tende a regredir de forma notória, essa situação tende a forçar as empresas a buscar na procura externa a solvência de procura que o mercado interno passa a não possibilitar. Esse efeito tende a ser mais forte do que o observado na situação inversa, ou seja quando o empolamento da procura interna pode conduzir as empresas a não privilegiar tanto a captação de mercados externos.
Do ponto de vista teórico e conceptual, em meu entender, esta conclusão não pode deixar de ser ponderada com dois aspetos que influenciam provavelmente os resultados obtidos. Por um lado, a transferência do mercado interno para o externo não é automática e exige processos de aprendizagem e de conhecimento de mercados e de condições de comercialização que são consumidores de tempo. Por outro e como corolário deste último, essa transferência não é independente do nível de presença no mercado externo já conseguido pelas empresas em busca de procura solvente. Quanto maior for essa participação já conseguida, mais fácil e rápida será essa transferência.
O artigo fornece ainda algumas razões para os problemas inerentes à utilização do custo unitário em trabalho como indicador de competitividade. Alguns desses problemas dizem respeito à disponibilidade e qualidade de dados, à inclusão no indicador de serviços não transacionáveis, à forte influência das flutuações cíclicas da produtividade, a problemas de agregação de setores muito heterogéneos, ao facto de cobrir apenas um custo de produção e também à inclusão do setor público.
Acresce que para as economias de mais pequena dimensão o seu estatuto de “price-taker”, isto é, sujeitas a preços definidos no mercado internacional pelas condições de concorrência, determina que a competitividade deva ser medida por outras variáveis, tais como a relação qualidade-preço, as quotas de mercados ou mesmo a lucratividade.
Em resumo, os indicadores de competitividade-preço têm vindo a perder relevância e, no caso da economia portuguesa, se é verdade que a taxa de câmbio real não perdeu importância explicativa, a realocação de recursos entre o mercado interno e o externo parece adquirir no período atual uma extrema relevância para explicar o comportamento das exportações.

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