domingo, 15 de fevereiro de 2015

MAS QUE TRÊS DA VIDAIRADA!

(A situação macro da zona euro 2008-2014 segundo Vítor Bento)


Em mais uma semana marcada pela situação internacional na qual a crise das relações entre as instituições europeias e a Grécia ditada pelo efeito SYRIZA e a crise da Ucrânia-Rússia começam perigosamente a interligar-se, confirmando a perspetiva anunciada pela história e pela geografia (a geografia faz a guerra?) de que aquele território deve ser tratado com pinças (e não quaisquer umas), a vidinha do cá por dentro trouxe-nos pouca novidade. Afinal é tudo uma questão de dimensão e temos gente que baste para apoucar o que já é irremediavelmente pequeno e sem sentido de futuro.
Passos, Cavaco e Bento tiveram esta semana o seu contributo para esse apoucamento.
O primeiro-ministro parece um jovem colegial sem filtros e sem preparação, muito ao estilo do seu passado jotista, disserta sobre a crise grega como se estivesse focado na problemática mais banal, e dá a entender que ninguém ou alguém muito incompetente lhe prepara tecnicamente o palco. Por tanto pensar na inevitabilidade da via punitiva para abordar a crise das dívidas soberanas, o homem nunca imaginou que uns diabretes da esquerda fossem capazes de ousar imaginar que há alternativas. E por isso tira da cartola que Portugal é de outro campeonato, não entendendo que o campeonato é único, pelo menos entre os que suportaram o ajustamento e que o Portugal fez ou foi obrigado a fazer não é suficiente para explicar o comportamento dos mercados.
Cavaco apouca ainda mais, trazendo números para espicaçar o mais descontrolado populismo dos que vêm sempre nos outros a razão de todos os males. Não lembra ao diabo que em período em que aos países do sul interessa a solidariedade europeia, que não se constrói destruindo-a entre eles próprios, o presidente já de uma minoria de portugueses venha contribuir para destilar a mais descabida falta de sentido de solidariedade entre os países mais afetados pela abordagem que se quer erradicar.
E, finalmente, Bento (Vítor de seu nome) deve ter sido visitado pela inspiração divina e descobriu agora a revelação (Eurocrise: uma outra perspetiva):“A situação de 2014 é, pois e do ponto de vista macroeconómico, pior do que era em 2008 e caracteriza-se por um duplo desequilíbrio – interno (elevado desemprego) e externo (excedente). Qualquer manual de macroeconomia dirá que uma tal situação reflecte uma insuficiência da procura interna. E de facto, a procura interna da zona euro como um todo é actualmente 3,4% inferior à registada em 2008”. E orienta baterias para a desmontagem da inevitabilidade que tanto marcou a maioria e gente associada (António Lobo Xavier, por exemplo): “Desta comparação parece, pois, resultar claro que o mau desempenho da zona euro durante a crise não era inevitável; que esse desempenho poderia ter sido melhor; que se o não foi, tal não pode deixar decorrer da política económica seguida; e que, por conseguinte, tudo sugere que a política económica usada pela zona euro para responder à crise foi desadequada. De facto, se os três blocos comparados sofreram o mesmo choque e ao mesmo tempo, a diferença de resultados só pode ficar a dever-se à diferentes níveis de fragilidade com que as economias receberam a crise e, sobretudo, à forma como as autoridades responderam ao choque”. Interrogo-me se Bento é um devoto convertido, ou se o faz por alinhamento com a interpretação que começa a ter mais força, mesmo que os alemães continuem a ignorar essa tendência. Não quero fazer juízos de intenção e julgar consciências. Como devoto convertido, poderia pelo menos ter uma conversa com o seu patrono (Cavaco) e explicar-lhe que face ao diagnóstico agora realizado Portugal tem todo o interesse numa solução global que ataque o problema e não o agrave. Ora, por mais que custe a esta gente, foi a rebeldia do SYRIZA que criou as condições para tal. Imagino que Passos o encare como um perigoso esquerdista moral e dele fuja apressadamente. Mas se Bento não é um devoto convertido e se a sua revelação divina é antes o resultado de estar na parada e reparar que tem pouca gente ao lado, então integra bem o trio da vidairada

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