segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

OS TEMAS DO ANO - I




(A estagnação secular das economias avançadas e seus efeitos na economia mundial)

Começamos a sinopse dos temas do ano com um dos temas mais comentados neste blogue – a estagnação secular.

Os economistas mantêm com o tempo uma relação difícil, sobretudo do ponto de vista das lentes com que um determinado acontecimento económico é interpretado. Quando vivemos um determinado acontecimento e o queremos interpretar, ele é único, impõe-se por si próprio. A habilidade a que os economistas frequentemente recorrem de o interpretar como se fosse um acontecimento a curto prazo ou, alternativamente, analisando-o numa perspetiva de longo prazo (o tempo longo que tanto me fascina) não é mais do que uma simples abstração. O acontecimento é aquele e não mais do que aquele. O que estamos a dizer é que o seu significado pode divergir quando o interpretamos numa lógica de curto prazo ou, como também se diz, de conjuntura do que ele pode representar, inserindo-o numa lógica de tempo longo. Mas para quem vive esse momento, das duas lógicas, a do curto prazo e a do tempo longo só a primeira nos toca, simplesmente porque estamos a vivê-la. O exemplo clássico desta contradição imposta pelas ferramentas da análise económica é o da vivência do desemprego. Para o trabalhador, novo ou velho não interessa, o que conta é o drama por vezes trágico da destruição do seu posto de trabalho. Para ele nada conta a invocação por parte dos economistas do tempo longo que a destruição de emprego é mais do que compensada (tem sido até agora, mas não é necessário que assim se repita por todo o sempre) pela criação de novos empregos. Talvez para o trabalhador mais jovem isso possa servir de consolo. Para o trabalhador mais velho, rapidamente esse consolo desapareceria se o economista do tempo longo fosse mais preciso e lhe comunicasse a dimensão de tempo que será necessária para que essa compensação se produza.

Esta complexa integração do tempo na análise económica está presente, por exemplo, no modo como tem vindo a ser explicada a mais que anómala recuperação da economia mundial (e particularmente das economias mais avançadas) após a crise financeira de 2007-2008. Hoje já é percetível que a intensidade dos efeitos da Grande Recessão de 2007-2008 foram inferiores às da Grande Depressão de 1930, mas que a recuperação demorou bem mais anos a ser consumada e a tornar-se sustentada. Ora, o que acontece é que quando hoje analisamos o confronto entre estes dois acontecimentos cruciais do capitalismo mais recente essa comparação é truncada por uma evidência que tendemos a subestimar. Quanto à Grande Depressão de 1930 já a podemos avaliar como acontecimento inserido num tempo longo, ao passo que para a Grande Recessão não temos ainda a distância necessária para o fazer.

Foi por isso muito relevante que alguns economistas tivessem ousado passar além desses limites e cunhar o que estamos a viver com uma aposta arriscada, largamente intuitiva, de que estaremos a viver um processo de estagnação secular. O debate sobre a estagnação secular teve em 2015 o seu grande desenvolvimento, largamente impulsionado pela destreza e repercussão mediática dos escritos de Lawrence Summers, académico prestigiado, figura complexa e controversa, que é tudo menos um académico encerrado em torre de marfim. Até o acusam de saltar demasiadas vezes a cerca dos limites da investigação para se aventurar em domínios que não correspondem com rigor ao que se esperaria de um economista académico. Summers cunhou o fenómeno, homenageando um economista Alvin Hansen, que havia invocado o tema para enquadrar os efeitos da democracia sobre o crescimento económico. Estou em crer que a invocação de Hansen não é por acaso. Hansen pertence aquela época de economistas em que os temas estruturais tinham visibilidade e despertavam o interesse da investigação, até serem substituídas pela ilusão de que os mercados tudo resolvem.

O desenvolvimento do debate sobre a estagnação secular veio abri-lo a uma multiplicidade de dimensões e com isso ganhamos discernimento para entender o momento atual do capitalismo. A moderação do crescimento económico nas economias avançadas é tema que deve merecer à economia portuguesa atenção ponderada. Duas razões essenciais suscitam essa atenção. Estando as economias de destino das nossas exportações sob o risco da estagnação secular isso corresponde a um desafio extremo, que nos conduzirá à necessidade de reorientação de destinos dessas exportações. E bem sabemos que essa reorientação não é instantânea. Depois, um período de estagnação secular determina que a redução do desemprego por via do crescimento esteja fortemente condicionada e esse espectro de manutenção de desemprego a níveis elevados pressiona transversalmente as economias.

O debate estimulado por Summers permitiu confirmar que a estagnação secular pode resultar de fatores de oferta e de procura. Summers inclina-se para a relevância do condicionamento de procura imposto sobretudo pelo advento imparável da desigualdade e pela crise de investimento que é por sua vez determinada pela baixa do preço relativo do capital (para a mesma necessidade física de capital a descida do preço do capital determina que uma menor volume de investimento seja necessário). Certamente que os limites e interrogações sobre a evolução do progresso técnico são relevantes, mesmo que a inovação tecnológica nos surpreenda a todo o momento, cortando todas as veleidades do estagnacionismo tecnológico.

A aposta teórica de Summers tem riscos. Veremos se a recuperação da economia americana e a subida gradual das taxas de referência do FED a transportará para ritmos de crescimento que tornem obsoleto o tema da estagnação secular. Mesmo que a produção teórica e reflexiva tenha surgido inicialmente em 2014, foi em 2015 que o debate se tornou mais vivo. Se Summers tiver razão, acentuando os bloqueios da procura global, Keynes ficará ainda mais vivo. Estou certo que em 2016 continuará a surgir mais investigação académica sobre o tema, infirmando-o ou contrariando-o não importa.

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