quinta-feira, 16 de julho de 2015

FOI PRECISO FERNANDES (JOÃO) EXPLICAR …




(Um exemplo ilustrativo da desestruturação do Estado e da inépcia do debate centralismo lisboeta versus novos poderes a Norte)

Já alguns dias me interrogava e aprofundava a minha ideia de que esta controvérsia em torno da inauguração da nova ala do Museu do Chiado, que espera melhores dias de contas públicas, para ter ligação com a preexistência do Museu (que é um dos meus favoritos em Lisboa), tinha que se lhe diga e que exigia uma melhor compreensão para sobre ela tomar posição. Várias vezes me coloquei na perspetiva de um cidadão comum e rapidamente conclui que este deve naturalmente pensar que esta gente da cultura são uns grandes confusos e que deveria tratar-se de lutas de capelinhas. Mas a diversidade dos contendores que surgiram em cena impunha que o INTERESSE PRIVADO, AÇÃO PÚBLICA se pronunciasse sobre o tema.

Senão vejamos.

A história é rocambolesca. Lá vimos um secretário de Estado conhecido pela sua flexibilidade e adaptabilidade a desdizer pelos vistos uma decisão sua em despacho anterior e também ao que se lê na imprensa a acatar a decisão do primeiro-Ministro que deve ter-lhe dito alguma coisa do tipo: Oh homem veja lá se muda a sua decisão que este não é o momento certo para comprar uma guerra com a gente do Norte agrupada em Serralves. Vimos também e aí compreensivelmente o diretor do Museu do Chiado a demitir-se não satisfeito com ter iniciado a preparação de uma exposição com um enquadramento e ter de a completar com outro enquadramento. Vimos também o presidente de Serralves a retorquir que não gosta que lhe pisem os calos e a não confirmar ou desmentir que terá pegado diretamente no telefone para falar ao primeiro-Ministro e dizer ao Pedro que teria de meter na linha o seu secretário de Estado dos óculos pequeninos. Ainda dizem que o Norte não tem poder! O que não tenho a certeza é que o utilize sempre bem. Vimos também uma grande especialista em museus, que muito aprecio, a professora Raquel Henriques da Silva que terá estado perto de se imolar pelo fogo, escandalizada pela deselegância com que o ex-Diretor do Museu do Chiado Pedro Santos foi agraciado e sobretudo violentada pela ação de Serralves. O que também é uma história bem conhecida em Portugal. Grandes cabeças, grandes especialistas, mas quase sempre primas-donas, incapazes de pensar um pouco na perspetiva global dos acontecimentos e ter uma intervenção pedagógica. Vimos ainda Suzanne Cotter, diretora e programadora de Serralves, a emitir uma posição bem sensata e bem mais esclarecedora do que o seu Presidente, talvez abismada por estes Portugueses que face à débil massa crítica dos seus recursos deveriam ter um comportamento bem mais cooperativo do que o manifestam regularmente. E vimos finalmente uma média manifestação de artistas em conflito aberto com o secretário de Estado, apoiando Pedro Santos e indiretamente culpando o comportamento de Serralves.

Mas que grande lio. Eis senão quando, hoje, no Público, alguém sensato e inteligente, vem a público com uma posição de grande ponderação sobre o assunto, contextualizando o problema e mostrando que só um comportamento cooperativo poderá dar um sentido final ao problema, poupando Raquel Silva à imolação em público.

João Fernandes, ex-diretor de Serralves vem finalmente explicar ao cidadão comum a raiz do problema, a verdadeira natureza da Coleção da Secretaria de Estado da Cultura, as razões históricas da sua constituição e sobretudo a convicção de que algumas das suas peças deverão continuar a manter a coerência da arte portuguesa acolhida em Serralves e que outras “encontrarão num museu de âmbito nacional, como o Museu do Chiado, uma melhor expressão de aspetos da história de arte portuguesa”. Só um comportamento cooperativo entre a massa cinzenta de Serralves e do Museu do Chiado poderá em conjunto com a SEC tentar readquirir um sentido de estratégia para a arte contemporânea portuguesa, não esquecendo a coleção Berardo adquirida com fundos públicos e a coleção do Instituto de Arte Contemporânea que ninguém parece ao certo saber onde está depositada.

Finalmente alguém com cabeça fria e inteligência para compreender o problema. Já não tenho pachorra para a inépcia do confronto entre o centralismo (desbotado) lisboeta e novos centralismos a norte.

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