quinta-feira, 24 de abril de 2014

ESPECIALISTAS TIRANOS E AUTOCRATAS BENEVOLENTES




Nos meus últimos tempos de docência com as questões da globalização e do desenvolvimento económico, dois livros marcaram para sempre a minha atenção: The Elusive Quest for Growth – Economist’s Adventures and Misadventures in the Tropics (2002) e The White Man’s Burden – why the West’s efforts to aid the rest have done so much ill and so little good (2006), MIT Press e Oxford University Press, respetivamente, ambos de autoria de William Easterly.

(William Easterly)
Easterly é um economista do desenvolvimento, controverso, de grande inteligência, que não enjeita o confronto e que tem uma notável capacidade reflexiva sobre a sua experiência de terreno, servida por uma rigorosa formação teórica. A obra de 2006 atrás referida constitui uma lúcida denúncia dos vícios da ajuda pública internacional, sem que isso signifique a validação para uma não solidariedade internacional. O “Fardo do Homem Branco” prenunciava uma trajetória de pensamento sobre o desenvolvimento que necessitava de aprofundamento e de maior explicitação. Ora essa explicitação surge agora com uma obra apaixonante, recentemente distribuída pela nova-iorquina Basic Books : The Tyranny of Experts – Economists, Dictators amd The Forgotten Rights of the Poor.
O livro lê-se de um fôlego, embora não seja pequeno, pode constituir um murro violento no estômago de quem é avesso ao debate e pensa em função de ideias feitas, mas um estímulo poderoso à reflexão para mentes mais abertas, grupo ao qual faço os esforços para pertencer.
A força do argumento de Easterly destina-se ao que designa de comunidade do desenvolvimento, uma comunidade de práticas que integra economistas com intervenção profissional no desenvolvimento, organizações internacionais, políticos, funcionários de ONG e outros, mas da qual retira a investigação científica propriamente dita não diretamente ligada à intervenção política. O aspeto mais controverso prende-se com a tentativa de repor no contexto histórico atual um debate que nunca chegou a ser travado, imaginem o debate entre Hayek e Myrdal (ambos Nobel em dezembro de 1974), ou mais propriamente entre o debate entre a liberdade do desenvolvimento (centrada no indivíduo e na sua capacidade de resolução de problemas, na defesa dos direitos dos mais desfavorecidos e minoritários, na aprendizagem a partir da história) e o planeamento do desenvolvimento (com foco na nação e não no indivíduo e não raras vezes conducente ao papel dos autocratas benevolentes e da tecnocracia). O que é relevante assinalar é que este debate não pode ser redutoramente equiparado ao debate mercado versus Estado, pois podemos ter, por exemplo, autocratas benevolentes e tecnocratas a tentar impor a via do mercado contra a vontade das populações.

(Hayek e Gunnar Myrdal)
Easterly talvez extreme a dicotomia entre as posições de Hayek e de Myrdal, desvalorizando por exemplo posições de economistas como Amartya Sen que incluem a liberdade como dimensão intrínseca do desenvolvimento e que por isso podem favorecer situações de planeamento sem que isso signifique necessariamente tirania dos especialistas e porta aberta aos autocratas benevolentes. Myrdal é demasiado associado ao seu Asian Drama e talvez injustamente conotado com a ideia da tábua rasa, sem apelo à aprendizagem com a história e a atenção aos contextos das sociedades mais pobres. A ascendência de Hayek sobre o pensamento de Easterly é clara, mas isso não é necessariamente uma impossibilidade de debate. Essa ascendência explica, por exemplo, que tal como Hayek, Easterly sobrevalorize a capacidade de resolução de problemas de populações desfavorecidas.
Mas não posso ficar indiferente à denúncia de Easterly dos autocratas benevolentes e da tirania dos especialistas, o que nos transporta para a ética do planeamento e para a necessidade imperiosa da liberdade como dimensão intrínseca dos processos de desenvolvimento. Compreendo, que nas condições concretas em que a comunidade do desenvolvimento opera numa esmagadora maioria dos recantos deste mundo, o debate proposto por Easterly mexe com todos os princípios adquiridos. Mas mesmo assim prefiro um profissional do desenvolvimento inquieto, com problemas de consciência crítica para resolver a um quadro autómato e servidor acrítico de autocratas benevolentes.

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