sábado, 3 de outubro de 2015

EFEMÉRIDE: 25 ANOS DE UM MODELO ECONÓMICO




(O “Endogenous Technological Change” de Paul Romer faz 25 anos e ainda há quem não compreenda o seu alcance…)

Em vez de dedicar o dia à reflexão política e preparando a futura resiliência face ao que pode acontecer, regressei à teoria económica, sobretudo aquela que não está subjacente ao monstruoso erro de abordagem macroeconómica que a tecnocracia europeia tem conduzido a grande maioria dos governos europeus.

E nessa deambulação dei comigo a registar com o contributo de Joshua Gans noDigitopoly que o modelo de Paul Romer focado na teorização do progresso técnico endógeno fez 25 anos. A publicação do “Endogeneous Technological Change” em 1990 no Journal of Political Economy, uma das revistas melhor pontuadas e geralmente apontada como o reduto dos economistas de Chicago, veio culminar com uma demonstração rigorosa várias intuições de economistas anteriores. Tais intuições apontavam para que o progresso técnico, ou seja, a incorporação de novo conhecimento em processos de inovação (novos produtos, novos processos) não constituísse na economia uma dádiva do céu, exterior à economia. Em termos económicos mais elegantes, alguns economistas intuíam que o progresso técnico não seria necessariamente resultante de um processo exógeno à economia, mas antes pelo contrário endógeno, ou seja, suscetível de ser influenciado por decisões de investimento. Paul Romer estava em excelentes condições para o fazer. Na sua tese de 1986, trabalhou a hipótese do crescimento económico se concretizar com rendimentos crescentes. Em raciocínio simples, podemos ter uma ideia com valor económico que existe como tal e não é duplicada e assim mesmo duplicar capital físico e trabalhadores. Quanto mais multiplicarmos o capital físico e o número de trabalhadores para aumentar a produção económica do resultado dessa ideia mais barata fica essa ideia em termos de produto unitário vendido. A isto chama-se rendimentos crescentes, ou seja, com o conhecimento inserido na produção não tenho de multiplicar todos os fatores pela mesma constante K para aumentar a produção.

Ora o modelo de 1990 de Romer fornece uma demonstração rigorosa de como a produção de conhecimento resulta de uma deliberada alocação de recursos (de capital físico e de capital humano para produzir esse conhecimento) e como é possível identificar os incentivos económicos para que as empresas ou os empresários individuais aloquem recursos a essa produção de conhecimento. Aquilo que vulgarmente hoje se designa por investimento em I&D não é mais do que a alocação de recursos de capital físico e de capital humano à produção de conhecimento passível de gerar valor económico. O incentivo para o fazer está no poder de monopólio que a ideia nova vai possibilitar, enquanto que no mercado não é replicada uma ideia melhor, com maior potencial de criação de valor. A Romer devemos a demonstração de que a plena compreensão da inovação exige que ponderemos os mercados de concorrência imperfeita.

A efeméride tem neste blogue lugar porque o modelo de Romer mostra que a modelização económica nem sempre significa ocultação ou trapaça. Por vezes, como é este o caso, a modelização traça um caminho de futuro, abre orientações para o aprofundamento das ideias, por mais obscuras sejam as forças que tudo fizeram para que a concorrência imperfeita e monopolista fosse remetida para um plano secundário.

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