quinta-feira, 25 de abril de 2013

O CRESCIMENTO SEGUNDO PEREIRA



Encurralado pelo falhanço da sua abordagem ao memorando de resgate e pela necessidade de ter um presente de última hora para envolver o PS num compromisso para exterior ver, o governo teve de preparar em cima do joelho, ou seja improvisando, uma pretensa agenda de crescimento que deveria ter sido pensada com ponderação, com tempo e sobretudo em estreita articulação com a programação 2020. Esta última constituirá o caminho crítico ao longo do qual o governo poderá acionar a frente dos Fundos Estruturais para encontrar alguma margem de investimento. Não se entende por isso que a tal Agenda mantenha com a programação 2020 uma relação tão distante. Mas menos se compreende que a apresentação da agenda dê a impressão que constitui uma iniciativa de Álvaro Santos Pereira (ASP) e não do governo como um todo. Ou seja, não é claro na apresentação em que medida o ministro das Finanças está comprometido com a referida agenda, por outras palavras, de que recursos ela vai dispor para ser concretizada com um mínimo de intensidade e resultados.
Vejamos com algum pormenor os eixos da designada “Estratégia para o crescimento, emprego e fomento industrial 2013-2020”.
O primeiro eixo identifica-se com a aposta no chamado sistema dual de formação, que visa em termos gerais generalizar o sistema de aprendizagem (formação em sala alternada com formação nas empresas). A operacionalização da anunciada fusão entre o ensino profissional e o sistema de aprendizagem não é de concretização fácil e não há evidência de que Nuno Crato e ASP estejam conectados nesta matéria. O ensino profissional foi aposta de NC e o sistema de aprendizagem nunca dele recebeu um apoio entusiástico, entre outros aspetos porque o sistema de aprendizagem é mais caro. O primeiro eixo da agenda surge sem preparação prévia e receio bem que a sua operacionalização atire para as calendas da eterna e difícil cooperação entre os poderes do emprego/formação e da educação.
O segundo não é novo e prende-se com o financiamento das empresas. Para além do banco de fomento que buscará energia e recursos nos Fundos Estruturais, todas as outras medidas terão como mediação a banca e as PME necessitarão de uma mediação mais fluida. A evidência mais recente é a de que o financiamento está um pouco mais fluido mas a taxas que podem anunciar o pior, ou seja, a procura de crédito continuar a deteriorar-se.
Quanto ao terceiro eixo, revitalização do tecido empresarial, ele é bem pouco convincente. O Fundo Revitalizar não tem uma intervenção que se anteveja eficaz apesar da sua dimensão de 220 milhões de euros. O programa Consolidar é ainda menos consequente.
O quarto eixo “Reduzir os custos de contexto” cheira a algo de requentado, sobretudo depois deste governo ter perdido a continuidade do processo de simplificação administrativa vindo da governação anterior.
É no quinto eixo que a agenda tem alguma coisa de palpável e isso acontece na matéria da fiscalidade para o investimento competitivo. Mas aqui o crescimento segundo Pereira depende do apóstolo Gaspar. Imagino que alguns resultados do grupo liderado por António Lobo Xavier estejam materializados no documento. É que neste capítulo pelo menos vislumbra-se uma estratégia de intervenção.
Nos restantes eixos, “internacionalizar a economia”, “Portugal pólo de referência internacional para empreendedores” e “infraestruturas logísticas competitivas” a falta de consistência e de tempo de preparação é flagrante, pois sem explicitação da magnitude de recursos alocados às medidas o documento é mais uma ferramenta de comunicação do que propriamente um roteiro de ação. A conversa de Portugal como polo de referência internacional para empreendedores é talvez a melhor evidência de um fraseado de intenções bondosas ou requentadas.
Perante uma agenda tão desequilibrada esperaria um discurso mais contundente por parte do PS, que não aconteceu. Uma interpretação não bondosa dirá que o PS neste momento não faria melhor, pelo menos pelo que se foi ouvindo aqui e ali nesta matéria do seu líder ou da sua equipa económica mais próxima (Óscar Gaspar, Eurico Dias, pelo menos). E, de facto, bondade à parte, será a triste realidade de uma alternativa que é e não é.

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