sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O FRANÇOIS PARECE ESTAR BARALHADO



Com a piada fina de sempre, Ricardo Araújo Pereira dizia hoje que o poder em França parece ser mais afrodisíaco do que em qualquer outro lugar, situando-se na curva ascendente de sensualidade feminina que vai de Ségolène a Julie passando por Valérie, ligações conhecidas de François Hollande. O assunto merece discussão, não necessariamente pelo seu tom picaresco, mas por questões bem mais amplas de significado como a privacidade do poder, as relações deste com o sexo, a vulnerabilidade dos homens e mulheres de Estado e o modo aparentemente tranquilo parece conviver com o assunto.
Mas não é esse o tema que me interessa. Que o François parece estar baralhado não tenho dúvidas. Mas a baralhação que releva para o comentário de hoje não é tanto a das “aventures extra-conjugales”, mas a das ideias económicas para resolver os problemas da velha, e não tão inovadora como se desejaria, França. Pois o senhor Hollande, sobre o qual as minhas expectativas e esperanças têm vindo a esmorecer a uma velocidade típica dos tempos políticos modernos, resolveu puxar dos seus galões e reabilitar o pensamento económico francês (e havia tanta gente para reabilitar), imaginem da velha (ainda mais velha do que a velha França) Lei de Say (Jean Baptiste Say). E fê-lo quase assumindo fórmulas como “L’État c’est Moi”, proclamando : “C’est donc sur l’offre qu’il faut agir. Sur l’offre ! Ce n’est pas contradictoire avec la demande. L’offre crée même la demande” (É portanto sobre a oferta que é necessário agir. Sobre a oferta. Não é contraditório com a procura. A oferta cria de facto a procura).
Hollande parece ter querido chamar a atenção para os constrangimentos que têm bloqueado a produtividade em França, cavando um desvio crescente com os principais rivais comerciais. Mas daí a recuperar a formulação de Say dá a entender que Keynes terá sido proscrito também nas Grandes Écoles.
Francesco Saraceno invoca o trabalho estatístico do ainda prestigiado INSEE para mostrar de acordo com as empresas francesas que os problemas de oferta não têm segundo as próprias empresas a relevância que Hollande lhes atribui. Ou seja, o homem parece não só não ter lido com a atenção suficiente a Teoria Geral, como também parece não entender os problemas das empresas.
François, o melhor será regressar ao regaço acolhedor de Ségolène, Valérie ou Julie (decida-se!) para aclarar as ideias.

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