terça-feira, 14 de janeiro de 2014

PAULO INCONSTITUCIONAL


É pungente, quase lancinante, assistir ao “Olhos nos Olhos” da TVI 24, programa onde Judite e Medina prosseguem semanal e denodadamente a patriótica missão que parecem ter-se proposto de abordar o que não conhecem e falar do que não sabem. Ele com a arrogância própria de alguém que se julga em manifesta superioridade face a quaisquer próximos e que cada vez mais se convence que descobriu, algo tardiamente, a sua verdadeira vocação de astro televisivo, entertainer e conquistador de audiências. Ela com a ingenuidade própria de alguém que não se exime a alardear, entre risadas absurdas e inconscientes, a indigência que decorre de toda a sua ignorância.

A maior parte das vezes a emissão é desinteressante, sobretudo na medida em que à marretice dos pivots se adiciona a do respetivo convidado e a sua disponibilidade para participar da maledicência sem jeito nem preceito. Em outras vezes a emissão tem algum interesse, advindo este largamente dos conhecimentos e da experiência que a personalidade convidada consegue transportar (caso em que é frequente vê-la em dificuldades para se distanciar das alarvidades que a sua boa educação força que tolere). E há ainda situações, pontuais, de dominância indefinida, i.e., onde o convidado evolui entre o colaboracionismo generalizado e momentos de breve inspiração.

Foi este último o caso de ontem com Paulo Mota Pinto – um dos mais discretos e inteligentes survivors do nosso sistema político-económico, logo também um dos seus mais gritantes aproveitadores – desenvolvendo os seus melhores esforços no sentido de fazer o pleno dos agrados por si considerados relevantes, entre o anfitrião rabugento e os ocupantes do poder. Foram bastante lamentáveis e de especial mau gosto as suas veladas referências críticas ao Tribunal Constitucional, designadamente porque vindas de alguém que por lá esteve em funções durante nove anos. De registar, por outro lado, a informação útil proveniente de umas contas rápidas que preparou acerca do “programa de ajustamento” e segundo as quais, das cerca de 7800 milhões de euros de medidas totais e 5000 milhões de euros de cortes na despesa, foram declaradas inconstitucionais medidas no valor de 3141 milhões de euros – ou seja, 63% das medidas de corte na despesa e 40% do total.

Finalizo: este hábil Paulo é o filho mais velho de um prestigiado professor de Coimbra que desempenhou altos cargos políticos no País até desaparecer precocemente em 1985, tinha então o dito descendente ainda pouco mais do que dezoito tenros anos – e que bem esse jovem se fez à vida!

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