domingo, 15 de março de 2015

SIGNIFICADOS DA DESINDUSTRIALIZAÇÃO




A nossa formação de base em desenvolvimento económico foi organizada a partir de uma evidência empírica de tempos que já lá vão segundo a qual o crescimento da indústria transformadora era entendido como um facto estilizado e um motor de crescimento das economias de mercado. Esse facto estilizado decorreu sobretudo dos trabalhos do economista Nicholas Kaldor, um economista de Cambridge – UK.
À medida que a história do desenvolvimento económico deixou de poder ser associada exclusivamente aos chamados países do desenvolvimento original, as economias maduras, acumularam-se evidências de que em outras situações concretas o motor do crescimento poderia não estar necessariamente localizado na indústria transformadora. Como sabemos, a chegada ao crescimento económico dos países a ele candidatos não se processa numa única vaga. Antes pelo contrário, sucedem-se em vagas sucessivas, cuja magnitude e composição é muito variada. Assim sendo, e dada a relevância da economia mundial como espaço de integração da grande generalidade dos processos de crescimento económico, é compreensível que os fatores de crescimento tendam eles próprios a diversificar-se, sobretudo porque a economia mundial vai se alterando e consequentemente vão-se modificando as condições de êxito de crescimento.
O tema da desindustrialização emergiu nesse novo contexto de vagas sucessivas de entradas no processo de crescimento económico e os economistas distinguem desindustrialização absoluta e relativa. A primeira observa-se quando o produto e o emprego gerados pela indústria transformadora caem ao longo do tempo em termos absolutos. A segunda é registada pelos economistas quando o peso do produto e do emprego que a indústria transformadora representa no produto e emprego totais tendem a cair. A desindustrialização foi entendida inicialmente como uma consequência do próprio processo de desenvolvimento económico, decorrente do facto da estrutura do consumo variar significativamente com o aumento dos níveis de rendimento, favorecendo a alocação de recursos para outros setores de atividade económica, entre os quais os serviços e entre estes as atividades de lazer. Porém, à medida que os processos de desenvolvimento económico de economias emergentes ou recém-chegadas ao processo de desenvolvimento económico foram sendo conhecidos com mais profundidade, foi possível compreender que a desindustrialização relativa não constituía apenas uma consequência apenas dos processos de desenvolvimento económico.
A tabela que abre este post, publicada num curto artigo de Uri Dadush no VOX EU, dá conta que no período 1990-2012 a desindustrialização relativa atravessa a totalidade dos níveis de desenvolvimento, evidenciando por exemplo que a queda do peso da indústria transformadora no PIB observada nos países de rendimento mais baixo foi similar à verificada entre os mais ricos.
O reconhecimento desta evidência empírica dos tempos mais modernos necessita de ser rigorosamente interpretado sob pena dos sinais que ela transmite para o desenho das estratégias de desenvolvimento dos países à procura de um futuro mais sustentado poderem ser enganadores.
As evidências de desindustrialização e a consequente perceção de que os serviços podem ser um motor de crescimento económico e até das exportações não podem ser ignoradas. Mas isso não significa que a indústria transformadora não possa ser em casos concretos de economias concretas e sobretudo em função do perfil de especialização que ela possa sustentar um motor bem-sucedido de crescimento. As novas “leis” do desenvolvimento económico, nas quais a desindustrialização relativa se insere, não assentam em determinismos. São simples regularidades e há sempre economias que não se situam “bem comportadas” nas retas de regressão. Por outro lado, o processo de desindustrialização relativa não significa necessariamente a perda de uma memória e de uma cultura industrial. Essa perda será sempre de evitar e a economia portuguesa parece ter compreendido essa lição da história. O que esta conclusão significa é que as janelas de oportunidade da economia portuguesa não são manietadas por uma evidência ou regularidade empírica como a da desindustrialização relativa. Aliás, a “ciência” de uma boa escolha nesta matéria consistirá em conseguir que o aumento da intensidade em serviços exportáveis da economia portuguesa não esteja necessariamente em conflito com o apuro de especialização nos setores da indústria transformadora em que a resiliência da produção nacional parece ter sido conseguida, embora á custa de uma significativa destruição de empregos mais desqualificados.

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