quarta-feira, 18 de março de 2015

A PACIENTE YELLEN



O acompanhamento do como o FED americano se está a posicionar face à inequívoca recuperação da economia americana e sobretudo do modo como a sua Chairwoman Janet Yellen controla o seu discurso e integra as diferentes sensibilidades presentes no Federal Open Market Committee (FOMC) é um exercício recompensador pelos ensinamentos que traz sobre o exercício da política monetária. Se há alguns anos me dissessem, a um desenvolvimentista e mais apreciador dos temas da economia real como eu, que me iria interessar pela política monetária ficaria espantado.
A pressão que o mercado está a realizar para que o FED clarifique a sua posição quanto ao momento em que subirá taxas de referência do FED é enorme, mas o gradualismo que parece inspirar a nova Governadora é notável de dosagem e inteligência. Na sua sessão de hoje, o FOMC manteve o intervalo de 0 a 0,25% para a “federal funds rate”, embora não afastando a hipótese de que em próximas reuniões essa taxa possa ser aumentada, em função do comportamento da economia americana. A subtileza da comunicação de Yellen é ter retirado da sua fraseologia a palavra “ser paciente” relativamente à referida possibilidade de subidas de taxa, parecendo querer libertar-se desse condicionamento para poder mais livremente optar por uma eventual subida.
Mas o FED enfrenta, por outro lado, a pressão em sentido contrário suscitada pelo debate em curso de que a valorização do dólar sobretudo face ao euro, determinada pela depreciação deste último, irá provavelmente ter implicações penalizadoras para o crescimento económico americano. Por isso, paradoxalmente, ou se calhar não, o FED reviu também hoje em baixa as projeções de crescimento económico e de inflação para a economia americana (e também das taxas de juro) parecendo querer dizer que está recetiva aos que afirmam que o dólar forte irá penalizar o crescimento americano. A nota de imprensa do FOMC afirma queo Comité antecipa que será apropriado subir a taxa de referência quando se observar uma melhoria mais profunda do mercado de trabalho e estiver razoavelmente confiante que a inflação evolua em direção ao objetivo de 2% a médio prazo. Esta mudança na orientação para o futuro não significa que o Comité tenha já decidido o timing para uma subida inicial da taxa de referência”.
Concluo daqui que, apesar da saída do discurso da palavra, Janet Yellen compreendeu bem que uma prematura subida da taxa de referência e consequentemente um aperto restritivo precoce da economia americana poderia pagar-se caro. É um conforto ter alguém assim à frente dos destinos do mais importante Banco Central.
Resta saber até quando o FED aguentará ver o dólar em apreciação progressiva por força da depreciação do euro imposta pela intervenção de Draghi no quantitative easing à europeia. Mas isso é outra história. E o BCE teve alguma sorte em ter do lado de lá uma economia bem mais recuperada do que a europeia, apesar dos sinais mais positivos das últimas projeções da Comissão Europeia.

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