quinta-feira, 28 de maio de 2015

SUGESTÃO DE LEITURA


(André Carrilho, http://www.dn.pt)

O romancista francês Olivier Rolin ocupa-se desta vez de um tema central para muita gente que viveu algum século XX em idade adulta. Escreve sobre um homem e a sua trágica história – que reconstituiu a partir de uma meticulosa busca por lugares e arquivos suscitada pelo acesso ocasional a um álbum editado pela filha –, um homem que, nascido em 1881 numa aldeia ucraniana e no seio de uma família da pequena nobreza, rejeitou a sua condição de classe para conscientemente assumir o bolchevismo; um homem cuja principal ocupação eram as nuvens, tendo chegado a diretor do serviço hidrometereológico da URSS; um homem que foi inopinadamente detido em 1934 quando se dirigia ao Bolshoi para assistir a uma ópera com a mulher e que esteve quase quatro anos deportado num gulag situado nas ilhas Solovki do mar Branco, perto do Círculo Polar Ártico; um homem que acabou, cada vez mais intrigado e inquieto mas sem nunca por em causa a sua confiança no partido e no seu líder, nu e com uma bala na nuca no fundo de uma vala comum.

Porque Alexei é apenas um homem banal que foi “vítima entre milhões de outras da loucura estalinista”, um caso mais entre a imensidão de “mortos inumeráveis” que sucumbiram às mãos de uma possibilidade fraturante na história da Humanidade que o “Grande Terror” precocemente arrasou. Porque o “tropismo russo” “é povoado pelos fantasmas da maior esperança profana que existiu, e do massacre dessa esperança, a Revolução e a morte sinistra da Revolução. Quando falo de Revolução, não falo do que ela foi na realidade, do golpe de Estado bolchevique de outubro, das personalidades mais ou menos medíocres ou paranoicas que foram dela os protagonistas, da desconfiança em relação ao pensamento livre e da ferocidade que manifestou logo de início; falo do que ela foi nos sonhos de milhões de homens, o mundo a mudar de base, a sociedade sem classes, ‘a utopia em vias de se tornar realidade’.”

Ouçamos ainda Rolin: “Não podemos olhar sem emoção, sem aquela espécie de espanto que suscitam os lugares terríveis, a esmagadora fachada cinzenta e ocre adornada com cornijas rosa da Lubianka, elevando-se com a praça do mesmo nome, à saída da estação de metro com o mesmo nome. Digo ‘nós’, mas de quem se está a falar, na verdade? Daqueles para quem contaram, de uma maneira ou doutra, num momento da sua vida, a esperança revolucionária e a sua morte sinistra. Porque se há um lugar que simboliza aquele assassínio em massa do ideal, aquela substituição monstruosa do entusiasmo pelo terror, dos camaradas pelos polícias, é a Lubianka. Ali está o centro dessa alquimia ao revés que transformou o ouro em vil chumbo. Quantos milhares de homens e mulheres livres e corajosos saíram desse matadouro quebrados, escravos? Por certo não idealizo o comunismo mas também sei a esperança que representou, a força generosa que pôs em movimento. Quantos milhares foram assassinados nas caves daquele enorme edifício burguês, de pesado estilo italianizante, que começou por ser a sede de uma companhia de seguros? Essa emoção, esse espanto de que falo não parece ser partilhado por muitos em Moscovo. Os transeuntes, em grande número na praça, não prestam nenhuma atenção particular ao infame monumento. Um resto de medo, talvez? A única placa nas paredes assinala que aqui, de 1967 a 1982, Iuri Andropov dirigiu o KGB. Nada sobre a multidão de mártires a quem foi furada a cabeça alguns andares abaixo do escritório de Iuri Andropov. À volta da Lubianka, as lojas de luxo da nova Rússia, as perfumarias, as joalharias, as Gucci, as Ferrari, as casas e átrios de exposição povoados de hostess de saltos stilettos e vigiados por matulões de fato de treino preto.”

Um livro que se traduz num despojado mas louvável ajuste de contas com a “tradição vergonhosa” que vem promovendo o esquecimento da primeira metade do século XX europeu. Um livro que assim responde ao facilitismo dominante e o contradita – “o que se faz na Europa atualmente é substituir o conhecimento por comemorações de efeméride”. Um livro irrecusável.

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