segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

PRESIDENCIAIS




(Como é difícil nesta cacofonia de candidaturas fazer passar alguma mensagem!)

Tenho conflito de interesses nesta matéria. Sou apoiante de António Sampaio da Nóvoa, tenho alguma relação de proximidade com o candidato porque tive com ele afinidades profissionais, tenho por ele uma grande estima pessoal e intelectual e subscrevi um manifesto de apoio gerado no Porto à sua candidatura. Por razões de estrita indisponibilidade pessoal, não tenho porém acompanhado de perto a sua candidatura e não tive qualquer influência na produção de ideias em torno da sua candidatura porque para isso não fui solicitado.

Pelas mesmas razões de disponibilidades de tempo não tenho acompanhado com a atenção devida a totalidade dos debates que rádios e canais de televisão têm acolhido, mas a sensação é que com dez candidaturas a cacofonia está no ar e torna-se bem difícil descortinar alguma mensagem que se salve. O que é lamentável porque o país precisaria de algumas dessas mensagens.

Tenho entretanto tido a preocupação de me informar junto de alguns apoiantes com presença no acompanhamento do processo e recolhi a observação que já foi visível na candidatura de Manuel Alegre quando em seu devido tempo conquistou 20% do eleitorado que depois politicamente se esboroou. Os aparelhos de candidatura estão muito centralizados em Lisboa e parecem não querer dar um pequeno espaço que seja a apoios e a ideias vindas do Porto. Eles lá sabem porquê e estou em crer que os candidatos ou se refugiam em processos estritamente individuais como Marcelo Rebelo de Sousa parece querer transmitir ao eleitorado ou, quando constroem esses grupos, acabam por ficar prisioneiros das ideias que por circulam nesses grupos restritos. A descentralização nestes processos é palavra vã e tais grupos parecem querer optar por nomes, nomes, nomes e poucas ideias que arrebatem os portugueses.

Tenho de confessar que a evolução do meu candidato tem sido algo dececionante, sobretudo porque não vislumbro nos últimos tempos qualquer trajetória de crescendo nas ideias que transmite. E não é difícil perceber que nas questões da economia há pouco trabalho de preparação do candidato para os embates de ideias que tem vindo a travar. Isso foi visível, por exemplo, no debate com Henrique Neto, bem mais preparado para o debate do que Nóvoa e que, a meu ver, dominou claramente o debate. Diria mesmo que António Nóvoa está hoje menos entusiasmado do que nos primeiros tempos de lançamento da sua candidatura e vá lá saber-se porquê. A ideia de que Nóvoa continua em meu entender a ser o candidato que melhor serve, do ponto de vista presidencial, o acordo que tornou possível o governo minoritário do PS mantém-se válida, apesar do rombo no porta-aviões que o fracionamento, pour cause do PS representou para a candidatura. Aliás, só nesse cenário Marcelo Rebelo de Sousa seria obrigado a dar corda aos sapatos. A bonomia com que o Professor ouve os impropérios mais diretos e penalizadores à sua candidatura e personalidade já irrita. Não quero acreditar que o melhor que a esquerda tem para apresentar em termos de resultado seja um segundo lugar de Maria de Belém. Com esse cenário, o Professor continuará a passear a sua bonomia, seja comendo as suas sandes de queijo e as suas bolachas Maria, seja tragando um cálice em qualquer bar popularucho. No fundo, o governo atual agradece já que estaria longe de imaginar que iria ter em MRS uma almofada para os primeiros embates.

A ideia das 40 personalidades que a candidatura de Nóvoa apresentou hoje associadas a outros tantos temas relevantes de candidatura pode ser potenciadora de alguma novidade sobretudo se for consistentemente trabalhada e não se esgotar na cerimónia de hoje. A sua ideia de organizar a Casa Civil segundo um outro modelo que permita uma maior porosidade da Presidência aos grassroots da sociedade portuguesa tem um grande potencial. Mas tudo isso implica que Nóvoa se concentrasse então nessa forma de interpretar a Presidência e assumisse que as questões da economia são para o Governo. Mas pelo menos uma resposta à agressividade de Henrique Neto seria necessária, até para o colocar nos eixos e desfazer a ideia de que só ele tem ideias sobre o futuro do País.

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