segunda-feira, 4 de maio de 2015

A PROPÓSITO: AJT/MSS



O título é aparentemente enigmático mas tem que ver simplesmente com a recuperação num almoço descontraído, em casa, de um programa da SIC Notícias, creio que passado sábado ou domingo à noite, protagonizado por António José Teixeira (o entrevistador) e Manuel Sobrinho Simões (o entrevistado). E recuperá-lo por que razão para este blogue? Simplesmente, porque há momentos, infelizmente raros, cada vez mais raros, em que de repente sentimos de novo algum prazer e retribuição de sermos portugueses e ganhamos resistência, como os camelos, para suportar toda a imbecilidade, estupidez e pavoneamento acéfalo que nos rodeia e nos povoa de ruído e informação desnecessários.

O discurso de MSS flui como corrente de água mais pura e cristalina pela sua maneira muito particular de viver e compreender a medicina e a investigação, nunca perdendo de vista a cultura antropológica dos portugueses, a sua perceção (vivida) dos interesses menos claros, a sua profunda humanidade, a simplicidade e despojamento apenas ao alcance dos que sabem muito, a sua permanente e fundamentada capacidade de nos comparar (é deliciosa a sua expressão muito anglo-saxónica de aquilo e aqueloutro compara com o melhor que se pratica por esse mundo), a sua rigorosa necessidade de delimitação do público e do privado, no fundo a sua espantosa capacidade de explicar a ciência e os meandros e conflitos éticos da medicina atual, no quadro da escassez de recursos públicos. É convincente a forma como explica que o sobrediagnóstico e a sobremedicamentação dos portugueses arruínam o orçamento do SNS e, simultaneamente, constituem um indicador expressivo de subdesenvolvimento, de iliteracia e de falta de confiança nas instituições, à qual se contrapõe uma prática médica cada vez mais insegura, cada vez mais deixa andar, crescentemente incapaz de tomar uma decisão que vá contra o despesismo sem sentido do excesso de diagnóstico e de medicamentação desregrada e caótica. É pedagógica a maneira como explica que há vícios estruturais no estado da saúde em Portugal que só se ultrapassam pela mudança de comportamentos familiares e individuais, para os quais só a família e a escola são o local certo para combater. É arrasador o diagnóstico de que 1% do PIB nacional e 10% do orçamento do SNS se gastam em patologias associadas à diabetes, cuja grande maioria é evitável por mudanças comportamentais e de normas de consumo.

A entrevista foi também particularmente expressiva dos rumos da chamada investigação translacional que se pratica no IPATIMUP (estendida espera-se ao I3S). É de facto extremamente inovador o modo como os recursos de investigação em torno do cancro, num contexto de país sem massas críticas relevantes de indústria farmacêutica, se articulam com unidades hospitalares como o IPO e o Hospital S. João para, em permanente interação com a prática clínica, desenvolverem novas soluções terapêuticas e atraírem por essa via a cooperação com a indústria. Ficamos também a saber que num contexto de financiamento que estava relativamente equilibrado no 1/3 de apoio público, 1/3 de filantropia e 1/3 de receitas próprias do IPATIMUP, o equilíbrio está hoje destruído porque o apoio público tem descido perigosamente para níveis de 1/5 e até 1/6. MSS aproveita a onda para criticar a deriva individualista, o estímulo do salve-se quem puder, o endeusamento doentio e acéfalo do empreendedorismo em matéria de apoios à ciência e tecnologia descurando o aspeto nevrálgico da sustentabilidade das instituições como um todo. Com a sua graça diria quase queirosiana, MSS afirma que os portugueses não precisam de modo nenhum de estímulos de comportamento de minifúndio. E acerta na mouche, pois em contextos de reduzidas massas críticas de recursos de investigação, estimular o individualismo na procura de financiamentos sem cuidar da sustentabilidade das instituições de excelência é criminoso e sobretudo suicida.

Estava a ouvir MSS e a recordá-lo há longo tempo num serão familiar em casa da Engª Cândida Barreto onde o mesmo registo coloquial nos capturava sem o menor esforço. Mas ao ouvi-lo também me recordei de imensas charlas e conversas com o saudoso Professor Nuno Grande, de há trinta anos, na tertúlia quase clandestina da RESULTANTE, onde também fluía a mesma capacidade inventiva da medicina.

Por isso, sobram-me impressões ambivalentes: a recuperação de algum orgulho pela sociedade portuguesa gerar personalidades e pensamentos deste calibre, mas também a incomodidade por avançarmos tão pouco nestas matérias comportamentais e organizacionais diagnosticadas há tanto tempo. E, por esse motivo e contributo modesto, faço jura de que pela minha parte os meus netos Margarida e Francisco irão contribuir para uma mudança comportamental em termos de consumo do açúcar e já agora do sal.

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