sexta-feira, 18 de julho de 2014

JOÃO UBALDO

(Mário Alberto, http://veja.abril.com.br)


Morreu esta madrugada João Ubaldo Ribeiro (JUR), um dos maiores escritores contemporâneos de língua portuguesa. JUR era membro da Academia Brasileira de Letras desde 1994, tendo modestamente afirmado no seu discurso de posse: “Tampouco sou homem de letras no sentido rigoroso do termo. Sou apenas um romancista, um contador de histórias, cuja modesta cultura literária foi adquirida num convívio arrebatado com os livros de Ficção, a Poesia e o Teatro. Receio que o convívio com a Teoria Literária e o Ensaio Crítico não tenha sido tão amoroso. Pelo contrário, sempre foi – e continua sendo – inconstante e esquivo, pouco entusiástico e, às vezes, indiferente. Não me gabo disso, antes me envergonho, sinto-me incompleto e frágil, ainda mais diante de tantos que aqui se encontram e que merecem, sem a menor dúvida, o galardão de homem, ou mulher, de letras.” Baiano nascido em Itaparica, também assumidamente “meio sergipiano”, Prémio Camões de 2008, JUR terá tido em “Viva o Povo Brasileiro” (1984) o seu projeto mais visível e representativo – um notável épico sobre a formação de toda uma nacionalidade! – mas produziu outros romances imperdíveis (como “Sargento Getúlio”, “A Casa dos Budas Ditosos” ou “Miséria e Grandeza do Amor de Benedita”) no quadro de uma obra variada em que os contos e as crónicas marcaram pontos determinantes.

Obviamente que não conheci pessoalmente JUR, mas tenho com ele uma íntima (embora unívoca) relação pessoal feita nesses tempos em que viajei com grande frequência para o Brasil. As mais das vezes saía de cá ao Domingo e chegava ao fim da tarde ao hall do “L’Hôtel” de S. Paulo, onde quase sempre encontrava um exemplar do “Estadão” integrando um escrito de JUR que logo me aculturava e me punha a pensar. Ganhei-lhe o gosto e nunca mais o larguei – até hoje, ainda visitava amiúde o portal do jornal para aceder ao que JUR nos ia trazendo e comunicando.

A última crónica por ele publicada, “A Elite Branca”, revela-nos o JUR desapontado e desalinhado que os anos crescentemente fizeram sobressair. Sem cedências, todavia, em relação à sua liberdade e independência e ao seu posicionamento essencial enquanto ser cidadão, aliás bem pouco benevolente para com a espécie humana (“Não sou muito otimista quanto à humanidade. Somos uma especiezinha muito criticável.”). Terminava assim, não poupando o próprio Lula, aquela crónica:

Outra palavra que já merece uma pesquisa semântica é ‘elite’. Lula também faz embaixadinhas com ela a torto e a direito e é preciso estar atento. Assim mesmo, é difícil entendê-la, a começar pela circunstância de que, desde a época em que foi chamado como promissor talento para a temporada universitária patrocinada pela AFL-CIO, formadora de quadros sindicais presente, respeitada e temida em todo o mundo, ele é elite. Foi elite dos sindicalistas, é elite do partido que está no poder, exerceu o posto mais alto da elite governante, num país onde o presidente da República é um monarca tratado com subserviência e vassalagem, viaja esplendidamente para palestras e lobbying, come do bom, bebe do melhor, é amigo pessoal e companheiro de lazer de ricos e poderosos, se trata nos mais respeitados hospitais com os mais renomados médicos, não entra em filas, não pega transporte público, não paga aluguel de casa nem prestação de carro, não se aporrinha com providências do cotidiano, não tem preocupação com o futuro, ganha mais do que todos os professores do primeiro grau da rede pública do Maranhão juntos, manda para lá, desmanda para lá e, ainda por cima, é cultuado por grande parte do povo. Então, ele não é elite? De que mais se precisa para ser elite?

Uma aparente novidade não altera a situação dele e até a faz mais difícil de compreender. Trata-se da expressão ‘elite branca’. Se bem me lembro - e até conferi nuns clipes que guardo no computador - Lula tinha o cabelo bem crespo, antes de sua completa ascensão política. Como sua pele não é alva, poderia talvez, por causa do cabelo, ter sido considerado pardo ou, como se dizia antigamente, mulato. Ou até negro, pelos critérios americanos que agradam a tantos. Mas hoje, como o nome de Conceição, o cabelo dele mudou. Alguém que nunca o tivesse visto antes, nem em fotografia, tê-lo-ia na conta de branco de nascença. Branco latino-americano, hispânico para os americanos, mas, em última análise, branco. Por conseguinte, ele não apenas pertence a várias elites, como pertence à elite branca, ele ficou branco. De resto, elite branca mesmo, no Brasil, só as famílias mais prósperas das comunidades de origem europeia, no Sul. Vai ver que elas acham que die Eschculambazionen foi longe demais e vão chamar dona Angela Merkel para derrubar o PT.

Enfim, e além de tudo o que é verdadeiramente importante, a falta de JUR ajuda a cavar mais um buraquinho na minha vida...

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