quarta-feira, 23 de julho de 2014

UM NOVO INDEPENDENTISMO?



A situação na Catalunha sempre ocupou nas minhas reflexões para este blogue um lugar de relevo, sobretudo porque me interessa analisar as pulsões do independentismo ou federalismo regional nos contextos atuais da crise do euro e da própria globalização.
A leitura dos jornais espanhóis em férias permite uma monitorização permanente do processo já que se avizinha a tal reunião entre Rajoy e Mas que poderá desbloquear ou agravar seriamente a tensão soberanista catalã e o El País e o El Mundo dedicam regularmente uma atenção regular ao pulsar catalão.
O El País de hoje inicia uma série de três artigos sobre a realidade catalã e avança com dados interessantes sobre o tema, tendo por base o contexto de segundo as mais recentes sondagens cerca de 45% (março de 2014) (com duas outras sondagens a apontar para 47 e 40% respetivamente)da população defende o estatuto independentista para a Catalunha, o que contrasta fortemente com os 19,4% de 2010 (janeiro).

Mas, a meu ver, mais importante do que este deslocamento para a tensão independentista (que poderá ter razões na crise espanhola, no comportamento pouco hábil do governo atual e sobretudo no chumbo constitucional do estatuto da Catalunha) é a alteração do perfil dessa pulsão independentista, que começa a afastar-se do nacionalismo identitário mais tradicional, a que não é estranho o facto de 14% dos novos independentistas terem nascido fora da Catalunha.
O artigo situa nesta marcha para a tensão da independência diferentes origens que vão desde os federalistas desencantados, jovens indignados e mesmo imigrantes acossados (que representam cerca de 4% dos novos independentistas) até aos republicanos mais convictos, numa linha de querer começar do zero. O Catedrático de História Contemporânea Borja de Riquer designa eloquentemente este deslocamento dos 19 para os 45% de “soberanismo prático”, sem dúvida uma bela expressão.
Mas de toda esta mudança do perfil independentista a que mais me impressionou é a chegada a este grupo de muitas gente que defendeu até à exaustão a saída federal (a Espanha das nações) e fá-lo pela convicção de que essa solução está já ultrapassada pela incapacidade negocial seja da CiU, seja do PP, agora investido em funções de poder. Ainda hoje considero que a saída federal da Espanha das Nações é a margem de manobra existente, mas tenho de confessar que perdi há algum tempo o contacto com observadores privilegiados da experiência catalã e não ignoro que a tensão pode apontar para outras saídas de grande imprevisibilidade.

Sem comentários:

Enviar um comentário