quinta-feira, 12 de abril de 2012

MAUS VENTOS DE ESPANHA


Se as autoridades portuguesas pensavam num qualquer casamento de circunstância para colocar a Ibéria mais forte face aos perigos da crise das dívidas soberanas, talvez valha a pena não juntar os trapinhos. Casarão com o epicentro do turbilhão que de novo afronta a zona euro. Todo o bom comportamento do candidato português ao referido casamento de conveniência corre o risco de virar ruína, pois o par espanhol está no meio da sua própria embrulhada. Persistindo a austeridade como sendo a preferida terapia da Comissão Europeia, lá teremos a já conhecida contração do mercado interno e um destino fulcral das nossas exportações, neste caso, as de proximidade, experimentará um significativo recuo, complicando toda a estratégia do resgate nacional em curso.
Porém, há um aspeto da situação espanhola que tem sido pouco abordado e que vale a pena sublinhar. A Espanha, à data da Grande Recessão de 2008, não enfrentava um problema de dívida soberana. Mas o peso da dívida privada é preocupante, o que significa que com esta dimensão de problema a nível privado, este setor entrará necessariamente num processo de “desalavancagem” e não estará em condições de suportar tão um processo de revigoramento do consumo e do investimento. Colocar o setor público simultaneamente na mesma posição conduzirá naturalmente a economia espanhola a uma longa retração e Portugal que se cuide. O economista Richard Koo do Nomura Research Institute, já aqui abundantemente citado neste blogue, foi talvez dos primeiros a sublinhar esta especificidade espanhola.
Hoje, no Público, o catedrático de Economia Emílio Ontiveros alinha na mesma linha de argumentação, precisando que os cerca de 300% do PIB da dívida privada pode, pela via da erosão dos ativos bancários, transformar um problema de dívida privada em dívida pública. E, para não variar, conclui pela necessidade de coexistência de uma estratégia mais consistente de crescimento económico combinada com a necessária flexibilização do défice público, por muito que o senhor Rehn torça o nariz. Esta ideia é coerente com a evidência que passou pela imprensa económica internacional segundo a qual foram essencialmente os bancos espanhóis que beneficiaram das operações de financiamento a três anos promovidas em Dezembro 2011 e Fevereiro de 2012 pelo BCE.
Estou curioso em saber se a arrogância com que os populares chegaram ao poder se vai manter intacta, tirando oportunísticamente partido da teimosia das autoridades europeias e fazendo passar por essa via “reformas” que em escrutínio político aberto nunca passariam na sociedade espanhola. Não terá sido por acaso que a apresentação do orçamento 2012 terá sido adiada para não impactar (sem êxito, diga-se) as eleições regionais das Astúrias e da Andaluzia.

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